
Você já deve ter ouvido a “nova” no mundo negro brasileiro submerso: num momento em que a Cidade do Rio de Janeiro se prepara para uma fenomenal gentrificação da cidade em nome da copa e das olimpíadas... Bum! Eles cavavam na área portuária e descobriram, submerso, um cais de suma importância para o tráfico negreiro no Rio de Janeiro. E de lá tem aparecido muitas coisas, muitos vestígios do contingente negro que por lá passava, circulava, sobrevivia. Dizem que achava-se até que o tal Cais do Valongo nem existia.
Dizem as autoridades que o tal cais será estudado, catalogado, preservado e... transformado em ponto turístico –
whatever!
E a obra segue.
Estamos todos fazendo de conta que nada aconteceu.
Semanas atrás fui a uma palestra de uma renomada scholar brasileira, numa universidade federal, e ela apresentava seu novo trabalho que tem a ver com essas mudanças urbanísticas e arquitetônicas na cidade por conta dos eventos citados acima. Perguntei a ela como seria classificada, no novo panorama urbano-cultural, tal “intervenção” da história no nosso novo projeto de nação.
Ela não estava preparada para a pergunta.
Respondeu alguma coisa tipo “dessa vez a renovação da cidade não passa pela questão racial, como o foi no passado” e, abruptamente, pulou para o próximo perguntador.
E como fica isso?
O que isso quer dizer sobre nós, sobre a cidade?
Tenho uns palpites, e os guardarei para uma outra ocasião.
Por agora só quero dizer que se a notícia da descoberta me perturbou, as fotos de objetos de uso pessoal dos escravizados encontrados nas escavações me perturbaram mais ainda.
E por um motivo muito pessoal, o qual sei ser parte de uma questão coletiva.
Quando eu era criança, eu não podia me dedicar às minhas divagações, às minhas leituras, às minhas curiosidades sobre coisas que cruzavam o meu caminho, coisas ditas não pertencentes “à minha realidade”, porque havia coisas mais importante e úteis a fazer: tomar conta da minha irmã caçula, lavar louças, arrumar a casa, pentear meus cabelos, ajudar minha tia, esquentar a comida para os meus irmãos... um saco! Odeio tudo isso até hoje.
Depois, quando finalmente DESCOBRI como se chegava à universidade e entrei pra uma delas, ainda que particular, os amigos “cabeça”, “conscientes”, e que nunca me perguntaram se eu sabia o caminho para um curso universitário, vieram me dizer que o curso de Letras, ainda mais Tradução, não era um curso “útil” e viável para mim.
Outras barbaridades aconteceram, neste mesmo sentido, ao longo da minha vida.
E a minha sede de beleza, de saber, de luz, só aumentando.
Agora, quando eu achava que não havia mais por que me proteger dos mesmos cerceadores de desejos alheios, começam a me dizer que a saída para mim, profissionalmente, e para “a causa” é eu me tentar um trabalho num departamento de Educação da vida.
Tenho o maior apreço e respeito pelas profissionais da Educação.
Acho mesmo que a Educação deva ser o carro-chefe de qualquer causa.
Por isso mesmo, vou ficar onde estou, na minha errância sedenta.
Cada uma dá o que tem para dar. E na minha terra só se vive uma vez.
Nem eu mesma sei ao certo o que “quero ser”. Só sei, e tenho cada vez mais certeza, de que a escrita é parte de mim, me sustem. O resto vou descobrindo enquanto sigo meu faro e meu coração. Os desvios necessários são apenas para aquisição do vil metal, fundamental para conseguir, ao menos, o vital teto todo meu.
No mais, não faço acordo com mediocridade, com infelicidades-- são estes os resultados quando seguimos quereres alheios.
Posso até ficar [e não ser] infeliz nas tentativas por cousas outras, mas pecarei sempre pela tentativa. Só se vive uma vez.
Ademais, quem foi que disse que nós, os desprovidos, vilipendiados, massacrados, não temos sede de beleza [qualquer possibilidade de manifestação de qualquer belo]?
Hein, quem foi?
Minha mãe, uma doméstica semianalfabeta entendia isso muito bem. Por isso não entendo porque é tão difícil para os letrados essa compreensão.
A minha justificativa do momento: eu derivo de um povo que tinha uma profunda sede de beleza, que nunca foi acorrentada, destruída, amordaçada.
A foto acima é a foto de um cachimbo de cerâmica feito por e utilizado pelos africanos escravizados que circulavam na área do Valongo.
Devia haver outros que faziam seu cachimbos de qualquer outra coisa mais simples, mais prática. Mas havia também, como sabemos agora, os que faziam essas peças elaboradíssimas, como a que vemos aqui – por enquanto não acharam um cachimbo simples, ou não catalogaram um. E todos foram escravizados, eliminados, brutalizados. A diferença, eu diria, é que alguns deles libertaram seus espíritos quando ainda eram cativos. E a prova é o cachimbo de cerâmica. E não serei eu a manter o meu espírito sedento preso apenas “à causa”, e/ou ao racismo.
Eu sou uma soldada desse exército, sim.
Só que minha ferramenta é sob medida para mim, para o meu espírito.
Claro que isso não faz com que eu sofra menos ou escape das brutalidades a nós impingidas. Apenas preciso ter certeza de que a minha vida, o meu tesão na e pela vida, pertencem a mim.
Acho que é isso: eu preciso da minha individualidade para bem operar no necessário coletivo. Funciono melhor de dentro pra fora.
E é pra fora, também, que assopro a fumaça dos meus cachimbos personalizados.
Meus cachimbos personalizados.
E no fim de tudo, na “revitalização da cidade”, descobriram uma “cidade de negros”, basicamente.
Vai vendo...