Thursday, December 22, 2011

Mãe Alforriada Pelo Próprio Filho


Campinas, São Paulo, 1869
Digo eu Isidoro Gurgel Mascarenhas, que entre os mais bens que possuo, sou senhor e possuidor, de uma escrava de nome Ana, recebida na herança de meu pai, Lucio Gurgel Mascarenhas, e como a referida escrava é minha mãe, verificando-se a minha maioridade hoje, pelo casamento de ontem, por isso achando-me com direito, concedo à referida minha mãe plena liberdade, a qual concedo de todo o meu coração.

Assim que imagino que a imprensa noticiaria tal fato hoje. Logo, este não é o titulo do texto-carta acima, essa chamada é invenção minha. Enfim, eu que vivo reclamando que a mãe negra brasileira não inspira demonstrações públicas de apreço nem mesmo de seus filhos mais talentosos – letristas, escritores... – ou apenas famosos – cantores, jogadores de futebol, atores... – me deliciei quando li a seguinte passagem logo na introdução do texto de Robert Slenes no Volume 2 da coleção História da Vida Privada no Brasil.

Esse Brasil...

Se eu estivesse num período bom de escrita, eu inventaria um conto sobre esse pedaço de História. Mas é dezembro... Só consigo escrever – e porque me é dado a todo tempo – Feliz Natal.

Monday, December 19, 2011

Num Negro Olhar em Janeiro de 2012




Pois é, uma das coisas mais legais que me aconteceram em 2011 foi ter meu texto selecionado para uma leitura dramática no evento Negro olhar, que acontecerá entre 18 e 22 de janeiro de 2012 -- I can't wait!

E N C A R A C O L A D A S

2011 foi tão punk de trabalho e coisas que eu passei oito redondos meses sem postar aqui. Eu sei, eu deveria ter vergonha de assumir tão longa inadimplência, mas é a mais pura verdade. Prometo às deusas da escrita que isso não se repetirá – quer dizer, se não for por um muito bom motivo.

E com isso, fiquei com vários textos me perturbando o espírito, Ele, que não precisa de mais perturbações. E um dos tópicos a me revirar este ano foi CABELO. Não tive pra onde correr. Acho que nunca se falou tanto em cabelo no mundo preto. Pelo menos não comigo. Até distraída eu topava com o tópico. Por exemplo, andando nos arredores da Praça Tiradentes – que depois descobri ser o império da venda de cabelos humanos – sempre tinha uma pseudo-cabeluda preta oferecendo, “cabelo, querida/amiga/senhora/amor/colega?” E elas não se intimidam, mesmo quando eu passava por ali de blecão elas jogavam a propaganda da venda de cabelos humanos em cima de mim. Um troço!

Teve também o lado positivo dos cabelos de pretas em pretas e para pretas. Aí foi muito legal. Por exemplo: num lugar onde dei 3 aulas num modulo sobre escrita criativa, na última aula uma aluna negra se aproximou e disse que queria viver seu cabelo natural mas que estava com muito medo do processo. E ela estava sendo sincera, honesta. Temi por ela, até tentei ajudá-la a protelar, pra que ela o fizesse no tempo certo, pra não haver traumas no processo, mas ela estava irredutível. A vontade de se conhecer era maior que o medo das pressões, tensões, e etc. Deu super-certo! Ela ficou/está linda e se redescobriu. Ela depois fez um post inspirador no blog Trança Nagô. [A vida às vezes se mostra tão mágica!]

E em setembro, passando por Salvador para o lançamento do meu livro, voltei quase expert sobre meus próprios cabelos. É isso mesmo, sobre os meus! Estes que eu achava que já conhecia por completo. Ainda falta muita coisa pra eu aprender sobre eles, mas mesmo assim agora eu já posso dizer que os conheço. Tudo por conta de minha amiga Gabi, que só não sabe sobre cabelos o que ainda não descobriram. Tive aulas e aulas, e só descobri que eram aulas quando voltei para o Rio e comecei a ensinar à minha irmã tudo o que eu havia aprendido e vi os belos resultados nos cabelos dela. E o mais legal disso tudo é que ficamos meio alquimistas mesmo. Isso é o que achei mais legal. Adquiri umas maluquices também. Por exemplo: não há farmácia no Rio de Janeiro pela qual eu passe e não entre pra saber se eles têm o condicionador de coco da linha Suave. Procuro desde setembro e não acho um único exemplar! Internet?! Já vasculhei tudo, e nada! Mas tudo bem, enquanto não acho esse e nem posso me dar ao luxo de usar os outros de preços exorbitantes, vou inventando formas de hidratar meus pelos naturais.

E por tudo isso – com este assunto longe de ser esgotado – lembrei de um incidente que aconteceu comigo e uma criança branca, em setembro de 2010, envolvendo cabelos. E aí, resolvi liberar aqui um dos posts que planejo desde então – um outro post sobre cabelo seria a tradução de um texto de Edwidge Danticat, mas disso falo depois.

Então. Estava eu nuns diazinhos de férias em Maceió e aí fui num desses passeios turísticos, nas famigeradas vans que levam as pessoas aqui e ali. Na ida fomos ouvindo as estripulias de 3 garotinhas baianas que não paravam de falar e não poupavam ninguém em suas observações. Por exemplo, num momento em que elas começaram a se empurrar e a cair em cima das pessoas, um casal paulista que estava ao lado das 3 no último banco pediu que elas se aquietassem porque podiam cair em cima da tia [a mulher paulista] e machucar o bebê que ela estava esperando. A mais falante das meninas, que devia ter entre 8-10 anos, não pensou duas vezes:

-- Tá grávida, é?! Logo vi, com esses peitão todo...

Eu, que nunca tenho um caminho de comunicação fácil com crianças desse porte, tratei logo de me fazer de morta. E deu certo. Na ida.

Na volta, as duas irmãzinhas dormiram. Apenas uma das meninas insistia em permanecer acordada. Das 3 moreninhas – morenas mesmo, não é um eufemismo pra negras, como fazem alguns que pensam nos agradar assim – ela era a mais clarinha e de cabelos mais fininhos [ou lisinhos?]. Digo isso por conta do diálogo que travamos. Bem que eu tentei evitar o diálogo, com medo dela, mas não teve como: ela estava sentada no banco à minha frente me olhando pelas frestas entre os bancos. E eu fingindo que não estava vendo. Quando ela percebeu que eu não me entregava, ela se levantou, veio se aproximando, olhando pra mim, pra minha cabeça, e foi direto ao assunto:

-- Por que é que você tem esse cabelo assim, hein, todo “encaracólado” assim, hein?!

Ufa! Então era isso? Respondi:

-- Porque eu sou negra, por isso meu cabelo é assim. Você não é negra, não é? Então, seu cabelo é diferente do meu por isso, porque você não é negra.

É, foi o que me ocorreu na hora. E ela realmente prestando atenção no que eu dizia, de pé ao meu lado, dentro da van que não chegava nunca ao seu destino. E aí, como eu estava com uma câmera fotográfica nas mãos, eu disse a ela – pra fugir da situação, já que os responsáveis pela pesquisadora mirim não se manifestavam:

-- Chega pra cá, vamos tirar uma foto juntas, uma foto dos nossos cabelos, vem cá.

Ela imediatamente, por iniciativa dela própria, colou o rostinho sobre o meu cabelo e eu bati a foto – só vi esse detalhe quando passei a foto para o computador. Ela pareceu conformada e voltou para o seu lugar – e nada do responsável procurar saber o que se passava.

Bem, desse diálogo restou a foto. E para que este encontro de cabelos ficasse ainda mais marcado, fiz uma montagem simbólica, que é essa que ilustra este post. Eu adoraria ter como enviá-la pra essa criança. E pelo que vi delas por hoooooras naquela van, acredito que ela daria muitas risadas, ela e as primas. E o legal também é que as texturas dos cabelos ficaram ainda mais evidentes na montagem.

São mesmo diferentes. E tudo é cabelo. Tudo é informação. Tudo é uma forma de introdução à diversidade humana que temos por aqui. Ela, que pelo “encaracolados”, deve ser ainda bem crua em tudo isso, nos seu 6-7 anos, se tantos.

Tomara que um dia essa criança aprenda de verdade sobre tudo isso.



Friday, April 15, 2011

Uma Sede Que Transcende o Valongo




Você já deve ter ouvido a “nova” no mundo negro brasileiro submerso: num momento em que a Cidade do Rio de Janeiro se prepara para uma fenomenal gentrificação da cidade em nome da copa e das olimpíadas... Bum! Eles cavavam na área portuária e descobriram, submerso, um cais de suma importância para o tráfico negreiro no Rio de Janeiro. E de lá tem aparecido muitas coisas, muitos vestígios do contingente negro que por lá passava, circulava, sobrevivia. Dizem que achava-se até que o tal Cais do Valongo nem existia.

Dizem as autoridades que o tal cais será estudado, catalogado, preservado e... transformado em ponto turístico – whatever!
E a obra segue.

Estamos todos fazendo de conta que nada aconteceu.

Semanas atrás fui a uma palestra de uma renomada scholar brasileira, numa universidade federal, e ela apresentava seu novo trabalho que tem a ver com essas mudanças urbanísticas e arquitetônicas na cidade por conta dos eventos citados acima. Perguntei a ela como seria classificada, no novo panorama urbano-cultural, tal “intervenção” da história no nosso novo projeto de nação.

Ela não estava preparada para a pergunta.

Respondeu alguma coisa tipo “dessa vez a renovação da cidade não passa pela questão racial, como o foi no passado” e, abruptamente, pulou para o próximo perguntador.
E como fica isso?

O que isso quer dizer sobre nós, sobre a cidade?

Tenho uns palpites, e os guardarei para uma outra ocasião.

Por agora só quero dizer que se a notícia da descoberta me perturbou, as fotos de objetos de uso pessoal dos escravizados encontrados nas escavações me perturbaram mais ainda.

E por um motivo muito pessoal, o qual sei ser parte de uma questão coletiva.
Quando eu era criança, eu não podia me dedicar às minhas divagações, às minhas leituras, às minhas curiosidades sobre coisas que cruzavam o meu caminho, coisas ditas não pertencentes “à minha realidade”, porque havia coisas mais importante e úteis a fazer: tomar conta da minha irmã caçula, lavar louças, arrumar a casa, pentear meus cabelos, ajudar minha tia, esquentar a comida para os meus irmãos... um saco! Odeio tudo isso até hoje.

Depois, quando finalmente DESCOBRI como se chegava à universidade e entrei pra uma delas, ainda que particular, os amigos “cabeça”, “conscientes”, e que nunca me perguntaram se eu sabia o caminho para um curso universitário, vieram me dizer que o curso de Letras, ainda mais Tradução, não era um curso “útil” e viável para mim.
Outras barbaridades aconteceram, neste mesmo sentido, ao longo da minha vida.
E a minha sede de beleza, de saber, de luz, só aumentando.

Agora, quando eu achava que não havia mais por que me proteger dos mesmos cerceadores de desejos alheios, começam a me dizer que a saída para mim, profissionalmente, e para “a causa” é eu me tentar um trabalho num departamento de Educação da vida.

Tenho o maior apreço e respeito pelas profissionais da Educação.

Acho mesmo que a Educação deva ser o carro-chefe de qualquer causa.

Por isso mesmo, vou ficar onde estou, na minha errância sedenta.

Cada uma dá o que tem para dar. E na minha terra só se vive uma vez.

Nem eu mesma sei ao certo o que “quero ser”. Só sei, e tenho cada vez mais certeza, de que a escrita é parte de mim, me sustem. O resto vou descobrindo enquanto sigo meu faro e meu coração. Os desvios necessários são apenas para aquisição do vil metal, fundamental para conseguir, ao menos, o vital teto todo meu.

No mais, não faço acordo com mediocridade, com infelicidades-- são estes os resultados quando seguimos quereres alheios.

Posso até ficar [e não ser] infeliz nas tentativas por cousas outras, mas pecarei sempre pela tentativa. Só se vive uma vez.

Ademais, quem foi que disse que nós, os desprovidos, vilipendiados, massacrados, não temos sede de beleza [qualquer possibilidade de manifestação de qualquer belo]?
Hein, quem foi?

Minha mãe, uma doméstica semianalfabeta entendia isso muito bem. Por isso não entendo porque é tão difícil para os letrados essa compreensão.

A minha justificativa do momento: eu derivo de um povo que tinha uma profunda sede de beleza, que nunca foi acorrentada, destruída, amordaçada.

A foto acima é a foto de um cachimbo de cerâmica feito por e utilizado pelos africanos escravizados que circulavam na área do Valongo.

Devia haver outros que faziam seu cachimbos de qualquer outra coisa mais simples, mais prática. Mas havia também, como sabemos agora, os que faziam essas peças elaboradíssimas, como a que vemos aqui – por enquanto não acharam um cachimbo simples, ou não catalogaram um. E todos foram escravizados, eliminados, brutalizados. A diferença, eu diria, é que alguns deles libertaram seus espíritos quando ainda eram cativos. E a prova é o cachimbo de cerâmica. E não serei eu a manter o meu espírito sedento preso apenas “à causa”, e/ou ao racismo.

Eu sou uma soldada desse exército, sim.

Só que minha ferramenta é sob medida para mim, para o meu espírito.
Claro que isso não faz com que eu sofra menos ou escape das brutalidades a nós impingidas. Apenas preciso ter certeza de que a minha vida, o meu tesão na e pela vida, pertencem a mim.

Acho que é isso: eu preciso da minha individualidade para bem operar no necessário coletivo. Funciono melhor de dentro pra fora.

E é pra fora, também, que assopro a fumaça dos meus cachimbos personalizados.
Meus cachimbos personalizados.

E no fim de tudo, na “revitalização da cidade”, descobriram uma “cidade de negros”, basicamente.

Vai vendo...

Tuesday, February 15, 2011

Palavra de Oscar




Estou longe de tudo
De tudo que gosto
Dessa terra tão linda
Que me viu nascer
Um dia eu me queimo
Meto o pé na estrada

É aí no Brasil
Que eu quero viver

Cada um no seu canto
Cada um no seu teto
A brincar com os amigos
Vendo o tempo correr
Quero olhar as estrelas
Quero sentir a vida

É aí no Brasil
Que eu quero viver

Estou puto da vida
Essa gripe não passa
De ouvir tanta besteira
Não me posso conter
Um dia me queimo
E largo isso tudo

É aí no Brasil
Que eu quero viver

Isso aqui não me serve
Não me serve de nada
A decisão tá tomada
Ninguém vai me deter
Que se foda o trabalho
Esse mundo de merda

É aí no Brasil
Que eu quero viver



Poema de Oscar Niemeyer lido por ele no documentário “A Vida é um sopro”.

Saturday, January 08, 2011

A Dona da Melodia




Foi assim que fechei o ano de 2010.
Por enquanto é só o que consigo dizer.
Para dizer mais sobre delicioso assunto, nascerá meu segundo blog.
Aguardem.

Katia Feliz Santos